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O defunto que o diabo levou
 

O coronel Carlota (coronel da antiga Guarda Nacional) era um riquíssimo traficante de escravos, já idoso, calvo e gordo, que residia com a família num sobradão quase centenário, à época, nas proximidades da igreja do Carmo.

A enorme riqueza material desse homem contrastava, porém, com sua imensa miséria moral.

Era um indivíduo perverso, de tal maneira perverso, que martirizava os infelizes escravos que lhe pertenciam, não porque cometessem algum delito, mas unicamente para vê-los delirar de sofrimento.

Muitos deles fugiam ou se suicidavam, quando lhe caíam nas garras. Aliás, não eram só os desgraçados pretos as vítimas desse tarado satânico, a família também sofria terrivelmente sob seu jugo implacável.

Era corrente que a filha mais velha fora por ele próprio envenenada, por apenas recusar um fazendeiro bronco, de idade avançada, enfermiço e autor de muitas mortes, o qual, só pelo seu ouro, o coronel queria para genro. 

Prosperavam os negócios do desumano traficante de escravos e preparava-se ele para uma viagem ao sertão, quando o destino lhe mudou o itinerário, mandando-o viajar para o cemitério.

A notícia de sua morte não causou nenhuma tristeza, como era de esperar, dada a antipatia que a cidade em peso lhe votava.

Quase ninguém subia as escadas do velho sobrado, para ver a máscara do morto ou levar pêsames à família. A repulsa era evidente. Ora, nesse dia, um estranho acontecimento se passou, de que só mais tarde se veio a saber.

Foi o caso que, tendo ficado, um instante, o cadáver sozinho na sala, quando a esta voltou a primeira pessoa da casa, uma grande surpresa a esperava:

o defunto havia desaparecido! Houve o justificado alarme. A família, aturdida, assombrada, não achava explicação para o fato a não ser a intervenção do sobrenatural.

-Era um velho tão mau, que falava tanto de Deus... - comentavam.

Baldadas todas as buscas, e a fim de evitar escândalo, colocaram no caixão, para fazer peso, um grosso tronco de bananeira e depois o fecharam.

Quando alguém, que chegava, pedia licença para ver o morto, diziam:

- Queira desculpar, mas não é possível. Está-se decompondo horrivelmente. Tivemos ordem de não abrir mais o caixão.

A tarde, os funerais foram feitos, com meia dúzia de pessoas, apenas, a acompanhar o corpo.

E dizem que, naquela noite, longe, muito longe da cidade, por uma deserta encruzilhada, passou, a horas mortas; numa carreira louca, um cavaleiro de esporas fosforescentes, alto, magro, anguloso, chispando fogo e levando à garupa de um cavalo fantástico o cadáver do velho coronel, envolto em lúgubre mortalha, que esvoaçava sinistramente ao vento...